A Segunda Esfera

Traduzido por: Cypherpunks Brasil
Revisado por: Matheus Bach, Cypherpunks Brasil

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Smuggler e “XYZ”

Site original - Anarplex - The Second Realm

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Notas do Tradutor

O objetivo desse projeto foi manter a tradução acessível ao público geral sem perder a fidelidade com a obra original. Vários maneirismos dos autores foram mantidos, algumas expressões não foram traduzidas para facilitar pesquisas por parte do leitor, afinal traduzir uma terminologia técnica resultaria em páginas de pesquisa em branco e quase nenhuma referência.


A Segunda Esfera

Livro de Estratégia

Cripto-Anarquia, Tradecraft, Zonas Autônomas Temporárias, e Contracultura

Este é um livreto para pessoas em busca da liberdade e para quem adere a uma filosofia de liberdade pessoal, civil e econômica através da ausência do governo em suas vidas, junto à forte presença de direitos de propriedade. Entre filosofias variadas, que mantêm essa visão, a mais notória é provavelmente a do Anarco-Capitalismo de ambas vertentes de Rothbard e Friedman. Os autores deste livreto aderem à vertente de Rothbard e é essa perspectiva que deverá ser considerada para extrair o máximo de valor deste texto.

Obrigado a Timothy C. May, Hakim Bey, Murray Rothbard, J. Neil Schulman e Samuel Edward Konkin III pela inspiração e idéias que expandimos.

Nós também agradecemos “The Free and Unashamed” por nos pedir para escrever o que pensamos, e por nos apoiar no processo. Enquanto vocês continuarem um mistério para nós, vocês serão um bom mistério.

Sobre os autores:

Este livro foi escrito por Smuggler e “XYZ”. Nós somos as únicas pessoas responsáveis por ele. Estes são nossos pensamentos.

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Conteúdo


Motivação

Qualquer um que adere à radical filosofia da liberdade, deve enfrentar a questão urgente de como progredir da nossa atual condição de liberdade insuficiente, para uma sociedade onde a liberdade individual é respeitada.

Várias estratégias para essa mudança foram propostas, desde participação política, educar e convencer as massas, desobediência civil, secessão e contra-economia; até mesmo revolução.

Enquanto essas propostas todas tem alguns aspectos interessantes, elas são por vezes ingênuas ou mal informadas a respeito do que realmente molda a sociedade.


A falha fundamental para a maioria dessas estratégias, com uma leve exceção na teoria da contra-economia, é a dependência numa mudança em massa das estruturas sociais, culturais e econômicas, e das pessoas em geral.

É negligenciado com frequência por voluntaristas o fato do pensamento coletivo dominar muito de nossos processos pessoais de tomada de decisão, motivo da maioria dessas estratégias pecar pela falácia de grandes números. Por esse termo, queremos dizer a crença de que devemos aguardar pelo progresso até que uma grande quantidade de pessoas se reúnam em suporte à nossa causa.

Nós discordamos, e pensamos que aguardar tem sido um erro, muitas vezes com o propósito de evitar riscos. Nós desejamos minimizar riscos, mas não ao ponto de ficarmos inertes.


Não esperamos exércitos de apoiadores. A razão para isso deve ser intuitiva tanto para economistas como psicólogos:

Tanto a produção como o parasitismo são estratégias naturais do ser humano para satisfazer desejos pessoais. Ambas estratégias se manifestam naturalmente e estão presentes na maioria das pessoas (com exceção de idealistas e moralistas de um lado, e verdadeiros sociopatas do outro).

Ambas estratégias podem facilmente serem observadas na vida moderna, com o parasitismo se tornando mais lucrativo a cada intervenção política.

Nossa atual sociedade redistributiva move a propriedade de produtores para parasitas, assim como muda as decisões de mão, do indivíduo para um governante. (O governante, claro, é isento de toda responsabilidade pessoal, contestação ou risco pessoal.)

Um número surpreendentemente grande de pessoas nas sociedades modernas é a favor da redistribuição da propriedade, algumas vezes conscientemente e outras apenas porque se importam mais com as regras do jogo do que com a moral do jogo: enxergam a redistribuição como o jeito que o mundo funciona e se esforçam para conseguir “sua fatia”.

Parasitismo, onde é imposto por um governo, é mais fácil do que trabalhar. Pois provê um nível comparável de consumo com menos esforço. Além disso, remove centenas de decisões diárias do indivíduo, junto com as sensações ruins de enfrentar seus erros.

Infelizmente é um truísmo que a maioria das pessoas apenas quer a liberdade para ter conforto.


A teoria de classes libertária descreve duas classes de pessoas numa sociedade: Aqueles que pagam mais impostos do que consomem serviços públicos, e aqueles que consomem mais serviços públicos do que pagam impostos. Ou seja: Pagadores de impostos e gastadores de impostos.

O que é pouco observado é o tamanho do segundo grupo. Na maioria dos países em desenvolvimento, os gastadores de impostos compõem muito mais do que um terço dos empregados, de burocratas a indústrias vivendo de dinheiro público ou regulações. Em países desenvolvidos, e estagnados, gastadores de impostos se aproximam ou passam de 50%. (A enorme emissão de dinheiro fiduciário permitiu que governos mantivessem esse jogo insustentável vivo… por enquanto.) Milhões de pessoas lucram com esse arranjo e vão lutar para mantê-lo até o fim.

Se combinarmos apenas essas duas motivações da busca por intervenção governamental, redistribuição de propriedade e terceirização de decisões, facilmente uma maioria se beneficiaria da existência de uma instituição assim.


Existem, no entanto, motivações para a existência de um Estado como uma organização social.

Uma é o sentimento que cria identidade, de “pertencer” a algo - um motivador humano natural e nem sempre negativo. Esse é frequentemente explorado pelo Estado para garantir apoio e limitar dissidências.

Outra motivação é a percepção de riscos e oportunidades perdidas de uma mudança no atual status quo para uma nova sociedade apenas baseada na interação voluntária, contratos e leis optativas. Pessoas se sentem confortáveis no arranjo atual e não querem passar pelo desgaste de se adaptar a uma nova situação. Isso é compreensível.

As questões reflexivas que são imediatamente feitas são como estas: Quem vai cuidar dos doentes, dos idosos, das crianças, do meio ambiente? Quem vai construir as estradas, manter a segurança, licenciar os médicos e garantir que os trens serão pontuais?

Estas questões são por várias vezes dispensadas com uma correta, porém superficial, resposta que é “o mercado”. No entanto, essa resposta não é suficiente. O “mercado” não simplesmente cuida de qualquer coisa - este é apenas um sistema de interação e troca. Pessoas encontram soluções para problemas humanos; empreendedores investem tempo e esforço para encontrar soluções que outros estarão dispostos a trocar coisas, e, se estiverem corretos, então lucrar.

Sem novos fornecimentos desses serviços (que são geralmente proibidos usando violência nos regimes atuais) a percepção de risco não pode ser suficientemente sanada - certamente não para alguém que está agitadamente fazendo a pergunta. Para ela, a possibilidade assustadora de um novo arranjo humano será rapidamente dispensada.

A terceira motivação contra a mudança para uma sociedade voluntária é a percepção de custo da mudança em si. Além de se adaptar para um novo estilo de vida, qualquer mudança encontrará resistência e risco de falha, variando desde a perda de tempo e dinheiro, até a perda de vidas ou a própria liberdade. Muitas poucas pessoas estão dispostas a assumir esses riscos, e muitas seriam necessárias para se alcançar qualquer mudança significativa na sociedade toda.

Afinal, a liberdade é cara.


A conclusão razoável então, é parar de esperar por um número grande de apoiadores e, em vez disso, se concentrar em estratégias que tornem a liberdade individual possível na situação vigente.

Porém, enquanto nós paramos de esperar que eventos enormes tragam a liberdade para nós, não perdemos a esperança pela liberdade - nós apenas encaramos o fato de que nós teremos que construí-la tijolo por tijolo, por nós mesmos, sem esperar por apoio ou permissão.

Felizmente, esses métodos permitem moldar uma sociedade voluntária para aqueles menos dispostos a assumir riscos, de forma que um conceito anteriormente virtual possa ser demonstrado na vida real - aqui e agora, para ver e sentir, sem ter que aguardar.

Isso não requer várias pessoas que pensem parecido.

A verdade é que aguardar pelo consentimento nos impede de agir. E agir permite que testemos e modifiquemos nossas teorias no mundo real, o qual é o único meio para que elas alcancem formas úteis.


Outro grave erro é muitas vezes encontrado no pensamento estratégico de anarco-capitalistas e voluntaristas.

Desde que o anarco-capitalismo é fundamentalmente uma filosofia individual, seus aderentes são, como de costume, firmemente opostos a qualquer noção de coletivismo. Enquanto de forma geral eles estão corretos, deixam passar distinções importantes em sua veemência.

O principal baluarte do coletivismo é a submissão do indivíduo ao coletivo - sem que o indivíduo expresse consentimento.

Isso inclui até mesmo o indivíduo sendo excluído, usado de sacrifício, pelo “bem” do coletivo, e a identidade do indivíduo sendo descrita como de mau caráter nos termos do grupo.

É de extrema importância que se enfatize dois aspectos importantes desse conceito.

Primeiro, qualquer participação no coletivo não depende da decisão expressa do membro. Ou esse é forçado a fazer parte, ou no mínimo, é forçado a continuar fazendo parte após se juntar ao grupo.

Segundo, os aspectos identitários de um coletivo são irrelevantes em quase toda situação significativa ou simplesmente superficial, além de seu significado.

Nós observamos isso em tantas formas que isso mal precisa ser explicado. O que às vezes passa despercebido, no entanto, é a possibilidade de ação coletiva com consentimento.


Voluntaristas, e pessoas que pensam parecido, tem por muitas vezes levado longe demais a ideia de qualquer agrupamento social, especialmente aqueles com capacidade de estabelecer identidade ou cultura.

Muitas vezes foi negligenciado que humanos buscam termos e grupos que os provêem com o sentimento de “pertencer a algo” assim como o de “ser alguém” - não por algum meio mágico do grupo em si mas porque o grupo é composto de humanos que já “pertencem” ou “são”.

Relações de grupo provêem a base para formar uma cultura de símbolos comuns, significados, ética e relações. Estes são úteis, talvez até necessários, para a interação humana e a vida.

Além disso, esses grupos podem formar sociedades ainda maiores que podem prover instituições, refletir relações e simplificar interdependências e alianças. O que leva a um aumento da estabilidade e eficiência de interação, comércio, comunicação, assim como funções que estabeleçam identidade de forma positiva e relações mais coerentes com pessoas fora dessa sociedade.


Deve ser enfatizado, no entanto, que essas funções positivas da sociedade somente podem ser alcançadas em grupos de associação voluntária (consentida individualmente) com condições fáceis e claras de saída.


As funções úteis de tais grupos de associação voluntária sustentam uma cultura de liberdade, e a formação de uma “sociedade” de pessoas livres aumenta o atrativo do anarco-capitalismo ao reduzir sua imagem de “frieza”, provendo uma narrativa comum e estabelecendo a base para lealdade e alianças voluntárias.

Esses aspectos positivos abrem novas opções para resolver os problemas que enfrentamos - execução de acordos, facilitação de relações de confiança, reputação, ajuda mútua, entre outras - ao aprender com os métodos encontrados em muitas sociedades anárquicas “primitivas”.

Conclusão

A estratégia para a implementação da liberdade deve ser construída sobre três idéias:

  1. É necessário que se alcance a liberdade individual em todos os aspectos - econômico, pessoal, civil - mesmo apenas com apoio de um pequeno conjunto da população. Liberdade deve ser tratada como uma posição minoritária que é ativamente oposta por alguns e passivamente ignorada pela maioria. (Se essa aumentar, não teremos problemas de adaptação.)

  2. Todas as noções de uma sociedade homogênea, alteração de opinião vigente e integridade universal da população devem ser abandonadas.

  3. Devemos formar uma cultura e sociedade de liberdade, ou no mínimo dar os primeiros passos em direção desse objetivo para sustentar tentativas de alcançar uma secessão cultural da sociedade vigente que nos permita formar e proteger instituições de interação social e relações.

Introdução

É até mais desafiador escrever um texto sobre estratégia que seja tanto prático quanto revigorante. Nosso propósito é mais o de inspirar o pensamento, e nem tanto criar um projeto final. Este pequeno livro tem um objetivo: Te preparar para ações razoáveis e efetivas. Se você ler mas não agir (não interessa o quanto você fale ou escreva), este livro falhou completamente.


Muitas tecnologias e métodos descritos nesse texto já existem e foram testados na vida real; outros aguardam implementação.

Nós fomos fortemente inspirados por estruturas, métodos e tecnologias encontrados em outros grupos que enfrentam os mesmos desafios. Isso inclui grupos de crime organizado como as Triads, Máfia e Yakuza. Nosso empréstimo deles não deve ser (obviamente) compreendido como apoio.

Além disso, nós também pegamos emprestadas, várias idéias sobre liberdade que vieram antes de nós, mais notavelmente Crypto-Anarchy por T. C. May, T.A.Z. por Hakim Bay assim como Counter-Economics por S. E. Konkin III.


Esta é uma estratégia para tomadores de riscos, empreendedores e aventureiros. Ambos riscos e as esperadas recompensas são grandes.

Em termos simples: Não é para criancinhas; mas para adultos. Encarar a realidade é um requisito. A mudança é criada pelas pessoas com coragem, não pelos tímidos que normalmente seguem com clamor pelo crédito após todas as batalhas terem sido travadas.

Mais uma coisa:

As pessoas de coragem quase sempre se divertem mais. Aproveite!

Primeiros Passos a Uma Estratégia

O primeiro passo em formular uma estratégia é alcançar clareza sobre os objetivos, formas de engajamento, obstáculos e recursos à sua disposição. Estes quatro componentes são interdependentes e alguns deles estão sujeitos a constante mudança (particularmente obstáculos e recursos).


Objetivos são o que esperamos alcançar. Neste caso é nossa participação pessoal, individual e exclusiva em uma sociedade onde a única fundação legítima para toda interação interpessoal seja o acordo voluntário.

Ela é uma participação pessoal porque nós como seres físicos, mentais e morais fazemos parte dela com todos os nossos aspectos, não apenas em um sentido abstrato.

Ela é uma participação individual porque cada membro de uma sociedade dessas deve decidir por si só se deve fazer parte ou não.

Ela é exclusiva porque nós preferimos viver como parte de uma sociedade voluntária e não como parte de uma sociedade coercitiva.


Formas de engajamento são as regras abstratas que governam nossas ações de forma a alcançar nossos objetivos. Quais ações são permissivas e quais devem ser evitadas? Já que nossa luta é no campo da ética, nossos meios devem estar em uníssono com nossos objetivos, no caso se abster de toda interação não voluntária.

Isso significa que os recursos que utilizemos sejam apenas os de nossa própria propriedade, que evitemos fraude, limitemos o impacto nas partes não envolvidas e que nos refreemos de toda violência que não seja autodefesa.

Já que a alegação de autodefesa é por muitas vezes abusada, há outra regra que deve ser incluída como sugestão: Evitar fontes de conflito onde nós possamos ser falsamente acusados. E também evitar pontos de conflito onde nossos oponentes estejam propícios a atacar, exigindo violência da nossa parte.


Antes que olhemos para os obstáculos que vamos enfrentar, algumas observações aos nossos recursos serão úteis:

Das nossas regras de engajamento, nós estamos limitados a nossos próprios corpos, propriedade e tempo ao alcançar nossos objetivos. Isso nos coloca numa posição menos afortunada do que nossos oponentes, que podem comandar o que eles não são donos, que é exatamente o que somos contra. Diluir nossas regras de engajamento nessa área iria então resultar no enfraquecimento de nossos objetivos ou até mesmo em sua perda completa. Esse foi o caso de várias tentativas históricas de criar liberdade as quais levaram à substituição de governantes, mas não do sistema de governança, ou que usaram terrorismo para estabelecer uma nova ordem.

Porém, usar nossos próprios recursos também nos permite ser mais flexíveis em suas aplicações, já que não precisamos do processo de comando e obediência para distribuí-los. Isso nos livra da complexidade e nos permite fazer uma implementação ágil das táticas.

Então, devemos esperar ser mais adaptáveis do que nossos oponentes, desde que não apresentemos novos esquemas de distribuição para recursos e ações.

Nós podemos e devemos focar em formar um ambiente de empreendedorismo para táticas, e deixar que elas refinem umas às outras no mercado.

Porém, para um mercado funcionar, nós devemos estar preparados para recompensar empreendedores por seus produtos e serviços superiores, não apenas através de respeito, mas também com considerações materiais tangíveis (dinheiro, etc.)

Ao contrário de nossos oponentes, nossa estratégia se utiliza dos papéis (já testados pelo tempo) dos empreendedores, consumidores e investidores. Isso é fundamental porque cria uma situação em que as pessoas que não são capazes de contribuir por prover serviços ou produtos, sejam capazes de contribuir por investir tempo ou dinheiro em produtos que vão ajudar nós todos a alcançar nossos objetivos - e talvez até lucrar.


Quais obstáculos nós enfrentamos? Essa é uma área de muita confusão e discordância. Vamos explorar isso em certa profundidade:

Obstáculos

Nós já concluímos que nossos objetivos são opostos pela maioria da população assim como pela classe dominante.

É, no entanto, necessário analisar os métodos específicos nos quais nossos objetivos são opostos e quais meios são utilizados para nos impedir de alcançá-los.


Humanos são seres espaciais, sociais e cooperativos. Nós ocupamos um espaço que nenhuma outra coisa espacial pode ocupar ao mesmo tempo. Nossos corpos precisam estar em algum lugar; eles precisam ser sustentados.

Nós também somos sociais porque nós exigimos interação com outros humanos. Nós queremos nos comunicar, nós queremos aprender uns com os outros, nós queremos procriar. Enquanto nós somos a única coisa no espaço que ocupamos, nós também precisamos interagir, sermos vistos, e ver outros humanos ao nosso redor. Nós definimos e alcançamos status social através da interação e observação, e usamos isso para descobrir como evitar conflitos, para resolver conflitos quando ocorrem, para criar instituições de interação e símbolos para identificar amigos e inimigos, e para otimizar nossa comunicação.

Já que nós também vivemos em um mundo escasso e não podemos fazer cada coisa necessária sozinhos, nós também nos envolvemos em cooperação, especialização e comércio.


Essas características da vida humana constituem a base da maioria das coisas que fazemos, mas também provêem os meios para que nossos oponentes nos mantenham acorrentados.

Através da história, aqueles que se opõem à liberdade desenvolveram e cultivaram a complexa e refinada “ciência” de como manter populações sob controle. Não estamos nos referindo a um grupo secreto de planejadores sociais, mas a um conjunto de técnicas que são compartilhadas não somente entre os governantes mas entre as partes da sociedade que lucram na coerção e no conforto que essa os traz.

Entender essa “ciência” é algo benéfico para enxergar como vários dos nossos aspectos - espacial, social e cooperativo - são explorados.


É necessário entender que o Estado e os sistemas do mundo não são espaciais. Apesar do Estado reivindicar controle geográfico, o Estado em si não ocupa nada, já que não é uma entidade física. É um conceito social de controle. O único jeito que o Estado pode interagir com o espacial é através de seus agentes e proponentes, assim como qualquer um condicionado a representá-lo ou invocá-lo.

São os humanos individuais que devem ser intrusivos ao espaço de outro indivíduo para exercer qualquer tipo de força, seja direta ou indireta.

Quando não utilizando da força, a única outra opção para o Estado agir no espaço é através de seus agentes, ao observar ou vigiar o espaço de outros.


Normas culturais da sociedade vigente e a maior parte de suas subculturas recompensam comportamento em prol do Estado enquanto punem comportamento não Estatal. Enquanto isso ainda não é verdade para todas as partes do código cultural, isso está aumentando, muitas vezes sem percebermos.

Há numerosos exemplos disso. O método sugerido com maior freqüência para a resolução de problemas é chamar a polícia, é sempre obedecer a autoridade do Estado, é usar métodos “convenientes” de pagamento (cartão de crédito, etc.), é fazer todo pagamento em curso legal (moeda nacional), conseguir um “bom emprego”, pressionar seus “representantes”, “trabalhar dentro da legalidade do sistema”, pagar por sua “fatia justa” de impostos, aderir a atual definição de “politicamente correto” ou simplesmente “não dar problema”. Todos esses códigos de conduta culminam em um objetivo: Integrar-se em uma sociedade que é liderada, organizada e permitida pelo Estado. Visões alternativas são rapidamente rotuladas como “perda de tempo”, “anti-práticas”, “irrealistas”, “utópicas”, “excêntricas” ou até mesmo “traição”.

Entrelaçados a esses códigos estão valores que a maioria das pessoas está acostumada a usar ao julgar seus vizinhos. Enquanto muitos soldados hoje participam das guerras que deveriam, de forma realista, serem chamadas de injustas e, portanto, um crime, eles não são confrontados com desgosto ao escolherem essa carreira. Policiais que garantem leis antiéticas (muitas vezes de forma antiética) não são excluídos de nossa fraternidade, mas ao invés disso chamados de “nossos modelos”. Cobradores de impostos que objetivamente conduzem assalto a mão armada não são explanados mas identificados como “fazendo o seu trabalho”. No final, todo mundo está apenas seguindo ordens.

Além disso, uma vasta variedade de símbolos são usados para identificar pessoas como sendo “respeitáveis”. Alguns desses são: estilos de roupa, símbolos de status, licenças, cartões de membro de sociedades, uso de linguagem e risos em momentos propícios.

Juntos, esses códigos, valores e símbolos formam expectativas e identidades societárias - a função de uma cultura - e qualquer desvio fundamental destas é respondido com rejeição ou até hostilidade explícita.

É muito importante entender que esses códigos, valores e símbolos são fortemente interligados e formam um corpo de cultura integrado que torna muito difícil se libertar desse esquema de forma bem sucedida. Se nós mudarmos apenas partes disso, é fácil sermos arrastados de volta para “o antigo costume” pelas partes que ainda estão amarradas à cultura majoritária. (Idealmente não necessariamente, mas de forma prática, normalmente está.)

Separar-se da cultura vigente e de suas várias subculturas deixa o dissidente como um excêntrico tolerado no melhor dos casos, ou um problemático indesejado na pior das hipóteses. Mas isso também deixa o indivíduo na posição de não ter integração social; que é necessária pela maioria de nós simplesmente por conta da nossa saúde mental.


Pior do que isso, é ser removido das funções cooperativas da sociedade. Muitas instituições de nossa sociedade foram originalmente criadas para otimizar a cooperação entre indivíduos. Desde então, porém, elas foram tomadas e remodeladas para suportar o domínio do Estado.

Essas instituições são numerosas e nós vamos listar apenas as mais importantes aqui:

  • Dinheiro e sistemas bancários
  • Títulos de propriedade
  • Identidade (documentos, passaportes, etc.)
  • Licenças, regulações e seguros
  • Cumprimento da lei e segurança
  • Sistema legal, tribunais, justiça e punição
  • Educação e mídia
  • Redes de Comunicação, Energia e Transporte
  • Caridade (agora políticas de bem-estar)

Cada uma dessas instituições e serviços estão firmemente controladas pelo Estado. Acesso e provisão estão limitados a aqueles que não são percebidos como inimigos do sistema mas a aqueles que seguem as normas culturais.

Esses sistemas são necessários para uma cooperação bem sucedida entre indivíduos; para satisfazer as necessidades que eles não podem satisfazer sozinhos.


É através de regulação, licenciamento e dominância cultural que o acesso a essas, e provisionamento dessas instituições e serviços é regulado, sempre com uma firme integração de vigilância e punição. Apesar de que há sempre brechas nesse controle que permitem que pessoas escapem, a principal atividade para legisladores e burocratas parece ser buscar e selar essas brechas - é criar um sistema no qual essas instituições, combinadas com sua cultura pareada, provenham um ferramental totalitário e moldem cada indivíduo sob o domínio do sistema Estatal.


Códigos culturais, valores, símbolos e sistemas e instituições de cooperação permitem que o Estado se torne uma entidade espacial, através de seus agentes, proponentes e dependentes. A cultura forma uma base para consentimento ativo enquanto o controle de acesso às instituições cria uma força implícita para manter seus súditos na linha. (Os benefícios de obedecer pesam mais que os riscos da dissidência.)

Isso provê o Estado com indivíduos que projetam sua força à esfera espacial através de suas ações. Começa com a simples exclusão social de dissidentes, continua com a delação e convida agentes Estatais a situações onde os mesmos são indesejados, e termina por usar a força contra os dissidentes.


Os aspectos entrelaçados da cultura, instituições, lucros da redistribuição e a expectativa de estabilidade formam a fundação do poder dos Estados e garantem um consentimento duradouro (tanto passivo quanto ativo) para a dominância desse sistema.

Nós chamamos o todo desse sistema de: A Primeira Esfera.


Por favor, tenha em mente que estamos falando sobre o sistema de dominação, não uma implementação específica ou os partidos que o governam.

Até o momento, tentativas de mudar esse sistema conseguiram (no máximo) mudar as faces donas do espetáculo, mas nunca mudaram fundamentalmente o jogo.


A pesar de podermos chamar o apoio da população a esse sistema anti-ético, mal orientado, estúpido e até perverso, esse é, querendo ou não, uma realidade que deve ser encarada de forma clara.

Nosso desafio é de uma magnitude enorme. Motivo de estratégias anteriores terem falhado em alcançar muitas mudanças duradouras.

Conclusões

Nós podemos então traçar as seguintes conclusões:

  1. Espacial: Nós temos que encontrar ou criar território (espaço) no qual nenhum agente, proponente, ou dependente do Estado esteja presente ou possa exercer força de qualquer forma direta. Com exceção do espaço sideral (e talvez o alto mar), é improvável que qualquer território que não esteja ocupado por agentes do Estado possa ser encontrado atualmente. Não vale a pena tentar criar esse tipo de território.

  2. Espacial: Nós temos que proteger e defender o território da liberdade contra a vigilância Estatal. Vigilância é o precursor da força, seja direta ou indireta. (Senão, a qual propósito ela serve?)

  3. Espacial: Nós temos que minimizar a necessidade de pessoas livres entrarem em território que é ocupado por agentes do Estado ou vigiado por eles.

  4. Institucional: É necessário formar sistemas de cooperação independentes que são formados pela ética da liberdade e que não estejam conectados às instituições de controle (se passando por instituições de cooperação).

  5. Institucional: Nós não podemos depender de qualquer instituição dominada pelo Estado para formar a base de nossas interações ou nossos próprios sistemas.

  6. Institucional: Qualquer interação com instituições controladas pelo Estado devem ocorrer via intermediários e com extrema separação, para limitar quaisquer danos que possam (e vão) ocorrer.

  7. Cultural: Nós precisamos criar e sustentar nossa própria cultura baseada nos valores definidos pela ética da liberdade.

  8. Cultural: Nossa cultura não pode ser uma simples subcultura ou contracultura para a cultura convencional dominada pelo Estado. Ela deve ser uma contra-cultura independente.

  9. Cultural: Nós precisamos dos nossos próprios símbolos culturais para que o reconhecimento mútuo possa otimizar a comunicação e o ordenamento social, assim como suportar a separação da cultura de nossos oponentes.

  10. Cultural: Os códigos culturais e normas da liberdade devem suportar ambas, a integração e o sustento de pessoas livres e a exclusão de agentes Estatais.


Nossa estratégia para a liberdade é a criação de uma cultura livre, uma sociedade que ocupe seu próprio espaço protegido e implemente sistemas de cooperação independentes. Nós precisamos criar a Segunda Esfera.


Essa tarefa pode ser justamente vista como monumental, e os riscos são altos. Porém, é definitivamente alcançável. Vários grupos alcançaram esses exatos objetivos no passado e muitas vezes foram capazes de sustentar seus sistemas por séculos. A única grande diferença entre esses empreendedores culturais de sucesso e pessoas livres é que nós estamos mais restritos em nossas regras de engajamento. De qualquer forma, até isso pode ser usado como vantagem a longo prazo.

Anarquia é a livre associação de indivíduos em sociedades de sua preferência.

A Segunda Esfera

Após termos definido os limites e objetivos de uma estratégia necessária - a criação da Segunda Esfera - é hora de olharmos para a implementação.

Vários grupos do passado e atuais servem como inspiração para nós ao imaginar o futuro das pessoas livres. Porém, eles não devem servir de guia; apenas de exemplos que podemos tirar lições. Nós vamos ter que fazer algumas coisas diferentes do que outros fizeram antes.

Como uma excursão de inspiração, vamos dar uma olhada em vários desses exemplos:


Grupos de crime organizado: Todo mundo conhece a máfia italiana, a Yakuza, as Triads e as gangues de moto fora da lei do noticiário. O que muitas vezes passa batido é que essas organizações não são gangues simples e caóticas, mas exibem um belo indício de seu próprio tipo de sociedade.

A máfia, por exemplo, é primeiramente uma rede solta de gangues independentes que pagam tributos a seus dons e recebem proteção e seu próprio sistema de resolução de conflitos em troca. Seu objetivo é limitar o conflito dentro dos grupos e não ter que usar da violência quando outras formas de resolução de conflitos estão disponíveis. Eles operam seu próprio sistema de territórios e mercados, eles provêem serviços de comunicação e reputação, e adotam a divisão de trabalho pela especialização. Alguém poderia definir a máfia como uma associação criminosa de negócios baseados em valores morais compartilhados.

Similarmente as Triads são estabelecidas na etnicidade (Chineses Han) e compartilham de uma narrativa cultural (resistência ao domínio Manchu). Eles existem a séculos, na maior parte por estabelecer uma sociedade integrada e tentar limitar suas atividades a conflito interno, explorando criminosos de rua e focando em crimes menos públicos.

Um padrão similar de narrativa social, foco moral e intervenção bem ministrada à esfera pública se mostra na Yakuza. Eles inclusive focam bastante em serem reconhecíveis pelo público.

Enquanto os três exemplos anteriores cobrem organizações mais antigas, as gangues de moto são um fenômeno mais recente. Eles mostram abertamente sua imagem de fora da lei como parte de sua cultura, criam suas próprias normas e usam sua própria forma de justiça.


Todos os exemplos anteriores compartilham de algumas características na operação e organização que podem servir de dicas do que estruturas paralelas de sucesso precisam.

Primeiro, eles são todos baseados em sua própria cultura e valores independentes. Não são caóticos e “sem lei”, mas tem suas próprias leis que são, por muitas vezes, mais estritas e mais conservadoras que a cultura convencional. Por exemplo, a Yakuza proíbe seus membros de participarem em roubos, a Máfia pune membros por adultério e todos eles levam a palavra do indivíduo e contratos verbais muito a sério.

Outra característica comum é que esses grupos normalmente tentam limitar a violência para com sua própria comunidade em vez de espalhar o caos. Isso por dois motivos: Obviamente isso evita chamar atenção da polícia e da opinião pública que poderia dificultar seus negócios, mas essas pessoas também se entendem como parte de sua comunidade local, da qual muitas vezes se esforçam para proteger e ajudar. Isso tem um efeito colateral positivo de ganhar o apoio do público dentro de sua presença territorial.

Contrária à opinião popular, esses grupos não são estruturas de comando hierárquicas. Sub-grupos são por muitas vezes autônomos e não seguem planejamento hierárquico. Em vez disso, eles partilham parte de seus lucros com a organização em retorno de serviços especializados, investimento e fornecimento de justiça. Frequentemente esses grupos têm de responder para líderes apenas por causarem muitos problemas, serem muito violentos ou interferirem com o negócio de outros subgrupos. Além disso, eles são, no geral, independentes.

A última semelhança a ser apontada é que esses grupos controlam locais como clubes, escritórios, restaurantes ou lugares similares onde eles podem se encontrar e conduzir seus negócios longe do público e onde podem se proteger de invasões surpresa ou infiltrados, tendo pessoal em todos os turnos 24 horas por dia, alarmes, guaritas, guardas e tecnologia de segurança.


Claro que esses grupos conduzem negócios que são antiéticos e usam métodos que entram em conflito com as regras de engajamento das quais nos limitamos, no entanto eles também fornecem algumas dicas para estabilidade a longo prazo e organizações fora da lei. Essas são:

  1. Eles definem e sustentam sua própria cultura paralela e sociedade.

  2. Eles seguem uma conduta de mínima-intervenção ao que condiz com gente de fora, especialmente nas esferas de violência.

  3. Autonomia local para subgrupos, os protege de decapitação e maximiza sua flexibilidade.

  4. Eles criam uma imagem positiva para sua comunidade local através de atos de ajuda e alívio econômico.

  5. Locais autônomos temporários os provêem com espaço protegido para conduzir seus negócios. Esses locais existem por tempo suficiente para justificá-los como semi-permanentes.

  6. Usam especialização e divisão de trabalho, eles criam um mercado interno para o fornecimento de serviços comuns necessários para seus subgrupos.

  7. Eles tem um foco altíssimo em operar seus próprios sistemas independentes de justiça internos e código legal.

  8. Por conta de sua natureza fora da lei eles tem que manter sua própria operação de segurança e defesa contra outras organizações fora da lei que se intrometem em seu território ou se provam hostis.


Podemos observar que esses grupos encaram problemas similares aos nossos - espaciais, culturais e institucionais - e que desenvolveram formas de superar esses desafios.


Abaixo, algumas dessas soluções são exploradas em detalhe e adaptadas especialmente para nossos obstáculos, recursos e regras de engajamento. Além disso, alguns componentes adicionais e necessários para a Segunda Esfera são apresentados. Juntos, esses formam a fundação de um modelo funcional para a sociedade paralela que precisamos.

Zonas Autônomas Temporárias Revisadas

Apesar de agredir um pouco a definição original de Hakim Bey, uma Zona Autônoma Temporária é um espaço ou território que frustra o controle de um governo amplamente reconhecido.


Há vários exemplos os quais diferem em autonomia e duração, de zonas permanentes completamente independentes até zonas de curta duração de autonomia simulada.

O mais antigo desses exemplos pode ser encontrado na Europa da idade média na forma de Guetos, que não só serviam como um local para concentrar grupos sociais “indesejados”, mas para dar a esses grupos autonomia interna na forma de seus próprios impostos e sistemas de justiça. Mais relevantes nesse respeito são os guetos da diáspora judaica.

Outro exemplo pode ser encontrado hoje na América Latina onde as favelas não só são excluídas de receber serviços oficiais do governo como também constituem zonas autônomas permanentes nas quais a força governamental só desempenha um papel durante incursões estratégicas, mas não no dia-a-dia. Na mesma categoria estão os arranha-céus ocupados em várias cidades Latino Americanas que não foram visitados por nenhum agente Estatal para funções oficiais por anos.

A Cidade Murada de Kowloon foi outro exemplo dessas zonas autônomas semi-permanente até a sua demolição em 1993. Localizada em território não disputado na fronteira da Hong Kong Britânica, com uma planta de aproximadamente um quilômetro quadrado, foi um local amplamente não governado desde meados de 1950 e era lar de mais de 33 mil pessoas.


Esse conceito e os vários exemplos de sua implementação na vida real são de enorme importância para nossa estratégia, sendo uma das principais soluções para o problema espacial.

Zonas Autônomas Temporárias nos dão a oportunidade para nossa cultura existir em espaço físico, nos permitindo conduzir nossos negócios, organizar nossas relações sociais e lidar com conflitos da forma que nós pensamos ser a correta.


No entanto, nossas zonas autônomas são por vezes muito limitadas em tempo. Nós precisamos de uma “política externa” que aumente sua duração e as faça seguras para atividades sociais e comerciais.

Para isso existem dois métodos no geral. O primeiro envolve ter criado a zona autônoma temporária em segredo, escondida da atenção do Estado que a cerca. Enquanto isso pode funcionar por um tempo, é muito limitada, já que eventualmente o local vai ficar conhecido e meios adicionais de estabilidade serão necessários. O segundo método foca em alcançar uma “tolerância informal” pelas autoridades Estatais. Para isso a zona deve atender três critérios:


Primeiro, a zona não deve se tornar um incômodo para os vizinhos nem ser conhecida como problemática para pessoas e propriedades fora da zona. Em especial isso inclui que os direitos de propriedade do território devem ser respeitados e que um acordo deve ser alcançado com os donos antes de conduzir qualquer atividade autônoma no local. Qualquer justificativa para influência de terceiros deve ser prevenida.

Segundo, a zona e seus habitantes devem aderir estritamente ao princípio “o que acontece na zona fica na zona”, significando que todos os conflitos devem ser resolvidos sem a intervenção de agentes da lei externos. Isso implica que devemos lidar com arruaceiros internos de forma imediata; antes que o conflito possa se escalar. Além disso, agentes Estatais e proponentes devem ser desencorajados de visitar o local. Normalmente isso ocorre não convidando pessoas de reputação questionável ou amigos conhecidos do Estado.

Terceiro, o custo da intervenção por uma parte de fora deve ser engrandecido ao ponto de se tornar injustificável, e que seja mais lucrativo para o atacante fazer vista grossa. Enquanto propinas são uma forma comum de alcançar esse objetivo, uma tática mais completa promete sucesso:

Esconder, Saber, Atrasar, Defender, Destruir, Recuperar. ^[Mnemônica: Esses socialistas adoram duvidar da razão]

Primeiro, esconda qualquer informação sobre o que acontece dentro da zona de espionagem externa. Isso requer o uso de controle de acesso para impedir ameaças potenciais de entrarem na área assim como contra-medidas a espionagem de sinais de dentro e especialmente por fora. Por exemplo, um lugar desses não deveria ter linhas de comunicação óbvias conectando ele ao mundo, mas em vez disso usar tecnologia de anonimização para esconder o conteúdo e fonte de sua comunicação. E mais, a área não deveria ser observável por fora e deve ser dada atenção especial para ataques de espionagem.

Segundo, alguém precisa saber quando um ataque físico - uma incursão - contra o local está em planejamento ou ocorrendo. Isso requer formas de ficar de olho ao redor e ter um sistema de alarme para avisar a todos na área que um ataque é iminente.

Terceiro, atrasar o agressor com formas passivas para prevenir que esse execute um ataque surpresa. Normalmente envolve várias barreiras, como várias portas reforçadas que precisam ser quebradas antes que a área de interesse principal seja alcançada. Isso é necessário para possibilitar que os ocupantes da zona autônoma temporária possam:

Quarto, defender o local. Enquanto opcional contra agressores do Estado isso é uma necessidade contra incursões de agentes não Estatais como gangues e outras formas violentas de crime organizado que esperam encontrar objetos de valor ou tomar território. No caso de agentes não Estatais, defesa por dissuasão pode se provar lucrativa. Isso pode ser feito ao mostrar que ambos sistemas de alarme e formas de atraso estão presentes, por exemplo sistemas de câmeras de segurança e barreiras de arame farpado.

Quinto, qualquer atacante deve sempre ser frustrado na busca por seu objetivo durante o ataque. Isso normalmente significa que qualquer coisa que pode ser do interesse deles deve ser destruído ou removido. Isso serve um propósito duplo. De um lado desencoraja o atacante e outros depois dele de atacar tal área novamente porque o custo do ataque ultrapassa qualquer lucro ganho com isso. Por outro lado, serve para proteger qualquer informação de chegar nos atacantes. Os mantém longe de qualquer coisa que poderia ser usada tanto para planejar futuros ataques ou como evidência em um julgamento contra os ocupantes da zona. No caso de atividades de mercado negro o produto deve ser separado do comerciante para que a posse não possa ser provada e o comerciante, condenado. Para isso ter sucesso, medidas anti-espionagem devem ser levadas a sério.

Por último, é necessário que não se desista da estratégia após o primeiro ataque bem sucedido. Qualquer operação deve estar empenhada em se recuperar para ser estável a longo prazo. Enquanto ataques para “assustar” podem ser lucrativos para o atacante se a estratégia for abandonada, ataques rapidamente repetidos se tornam problemáticos tanto em questão de custo quanto em opinião pública.

É muito importante que se enfatize que não estamos falando sobre uma “base militar” que foi criada para desencorajar um ataque. Ao invés disto, o objetivo da nossa proposta é criar áreas que façam ataques repetidos (mesmo com êxito) por lucro ou evidência, muito caros e menos atraentes. Qualquer forma direta de batalha aberta com os agentes Estatais levará a derrota e perdas de vidas e liberdade. Nosso objetivo é manter a evidência longe das mãos de agressores. A única situação que um conflito direto pode ser lucrativo é contra criminosos violentos não Estatais.


Para nossos propósitos, uma zona temporária autônoma dessas pode ir de clubes de negócios de natureza semi-permanente até feiras de rua que só duram algumas horas. Os requisitos de segurança para diferentes tipos de zona podem variar significativamente, de acordo com os riscos que enfrentam. Para a maioria das operações um restaurante bem administrado com uma sala nos fundos e pessoal 24 horas podem ser suficientes. De qualquer forma deve-se prestar atenção aos princípios táticos mencionados acima.

O propósito principal de uma zona autônoma temporária em nossa estratégia continua sendo a de “manter a evidência longe das mãos de agressores, e de ter um local seguro para nossa cultura e negócios”.


Como inspiração adicional, essas zonas podem servir não só como locais de atividade social, mas também para a proteção de bens e comércios. Outro exemplo para seu uso são feitorias onde ocorrem negócios de um-para-um que devem ser conduzidos pessoalmente, ou mercados autônomos temporários que abrem suas atividades para a nossa sub-sociedade. Além disso, esses lugares podem ser usados como Agadir - instalações tradicionais para guardar itens de valor de forma segura.


Métodos adicionais de operação nesses locais podem ser explorados, mas eles são puramente táticos e específicos para o uso em questão. Logo, os deixamos como um exercício ao leitor e para outras publicações.

Além da Fisicalidade - Em Direção à Informação

Uma das grandes vantagens das Zonas Autônomas Temporárias (ZAT) é a habilidade de se viver como se fosse livre - pois você é, pelo menos nesse momento de local e tempo.

Essa vantagem não é válida apenas para locais físicos, mas também para locais digitais. Mesmo que o termo “lugar digital” seja enganoso porque a fisicalidade de uma esfera digital é insignificante, mas pode servir à algumas das finalidades que uma ZAT física pode cumprir.


Criar uma zona digital autônoma, uma zona digital permanente, nos permite socializar, comunicar e fazer trocas em um ambiente que pode ser fortemente protegido contra o envolvimento de um terceiro e coerção através da tecnologia e criptografia.

Aqui as pessoas podem falar umas com as outras como se o Estado não existisse, elas podem planejar ou até conduzir trocas sem ter que gastar um pensamento sequer sobre a esfera legal que seu corpo físico reside. Uma grande parte de nossa vida que não é tolerada pela sociedade ao nosso redor pode ser conduzida na segurança do ciberespaço.^[A esfera digital que é fortemente protegida por criptografia e usa um modelo criptográfico para assegurar algumas regras.]

Já que anonimizar a tecnologia e a criptografia podem separar nosso corpo coercível de nossa mente ativa e identidade, nós temos a habilidade de experimentar com novas formas culturais, sociais e jurídicas aqui - sem o risco de ir preso ou julgado.


Dito isso, zonas autônomas digitais não podem substituir os aspectos espaciais da nossa humanidade. É difícil beber algo no ciberespaço, você não pode olhar para cada rosto durante uma negociação e apenas bens digitais podem ser negociados diretamente. Quando combinamos zonas autônomas digitais e físicas, o melhor de dois mundos pode ser usufruído: usando tecnologia digital para negociações e reuniões ad-hoc usando zonas físicas para entregar as mercadorias ou para tomar uma juntos. Isso é crucial para a ligação social. Frequentemente, a parte mais arriscada durante uma transação - entregar o dinheiro e fazer cumprir os contratos - podem ser transferidos para o ciberespaço onde a proteção é garantida através de uso de matemática avançada. Falaremos sobre algumas das tecnologias necessárias abaixo.


Combinando zonas autônomas tanto físicas quanto digitais, portanto, nos fornece um amplo conjunto de métodos de proteção que nos permitem agir livremente, pois somos livres.

O Futuro

O impacto total das zonas autônomas vai se mostrar em um futuro próximo. As tecnologias estão mudando os tamanhos ideais de negócios, número e diversidade de produtos e atores necessários para um mercado funcional. Neste momento é difícil para nós sermos auto-suficientes em nossas zonas francas. No futuro iremos não apenas ter a capacidade de ser auto-suficientes se quisermos, mas poder ser forçados a confiar muito mais em nós mesmos devido ao colapso social na Primeira Esfera.


Existem várias tecnologias e tendências econômicas que devem ser mantidas no radar de qualquer anarcocapitalista.

Duas dessas tecnologias são o advento de vários tipos de agricultura urbana, especialmente a agricultura urbana vertical industrial (que promete fazer a produção de alimentos para muitos milhares de consumidores possível e econômica - em um único arranha-céu) e microfabricação. Microfabricação é a produção automatizada de peças por meio de impressão 3D sem a necessidade do desenvolvimento de ferramentas especiais. Isso permitirá o download de planos de construção da internet e a impressão subsequente de geometria complexa com impressoras 3D que não requerem atenção durante a operação. O número de materiais básicos disponíveis para esse método está aumentando rapidamente e logo permitirá que qualquer pessoa com as habilidades certas concorra com instalações especializadas de produção de alto capital com uma fração do risco e do investimento.

Essas e outras tecnologias reforçam uma tendência que pode ser vista em partes crescentes das economias ocidentais, que é a passagem de uma cultura de consumo em massa para uma cultura de produção-e-consumo, na qual muito mais pessoas são autônomas, as lojas de artesãos voltam para o ambiente urbano e os produtos da produção em massa perdem o encanto.


Quando combinamos zonas autônomas com mudanças nos campos econômicos e tecnológicos, bem como mudanças na composição social, é fácil imaginar microterritórios voltando a ser atraentes. Esta será a grande oportunidade para plantarmos as sementes da liberdade em partes cada vez maiores da população sem cair na falácia das massas. Mas, para que isso tenha sucesso, nossas atividades precisam começar com bastante antecedência. Devemos mostrar modelos que podem ser expandidos e estruturas que já resistiram a algumas tempestades. Nosso modelo deve ser visto como comprovado, viável ou até atraente.

Ensaios sobre trocas seguras - Básico de Tradecraft

Há pouca discordância que trocas - e qualquer outra interação social - deva ser protegida da intromissão e coerção de terceiros, roubos ou violações similares. Nos deparamos com uma ameaça adicional simplesmente por existir e interagir fora do sistema que nosso Estado anfitrião nos permite.


Essa ameaça é fundada em nossa oposição à provisão de justiça compulsória pelo Estado.

Por um lado nós não podemos usar o sistema de justiça do Estado como solução para violações que experimentamos de forasteiros, o que requer que tenhamos nossos próprios meios de nos defender contra a agressão de terceiros e alcançar justiça se a defesa falhar. Nós precisamos do nosso próprio sistema de justiça e mecanismos de aplicação.

De outro lado, os braços de sistema de justiça e aplicação da lei Estatal são contrários à existência de nossos sistemas e as ações que participamos fora de sua esfera proclamada. Nós, portanto, nos deparamos com o Estado tentando se intrometer em nossos negócios e nos punir por não obedecê-lo ou nos esconder de seus agentes.


O segundo problema - perseguição pelo Estado - merece que pensemos mais a respeito. Como nos protegemos contra um oponente tão poderoso?

Deixe-nos introduzir alguns conceitos aqui que podem nos ajudar a projetar métodos para combater essa ameaça.


Pseudonimidade. Um dos métodos de controle que são usados por nossos oponentes, que permeiam a cultura vigente e é estrita dentro da maioria das instituições de cooperação, é o uso de “Nomes Verdadeiros” - nossa identidade oficial, sancionada pelo Estado e amplamente conhecida da qual cada um de nós deve ter apenas um, e que segura juntas todas as nossas ações. Certamente ter e usar nomes é um pré-requisito em várias interações sociais e comerciais. Sem isso nós não conseguimos nos encontrar novamente de forma fácil, dirigir-se um ao outro, ou ter uma história que permite que outros se refiram a nós.

Porém, não há necessidade de que esses nomes sejam os que nossos pais nos deram ao nascer, ou que sejam reconhecidos pelo Estado, ou até que cada um de nós leve apenas um nome uma vez e para sempre.

Pseudonimidade é o conceito de ter nomes alternativos e identidades que nós revelamos a medida que são necessários, que estão atrelados a suas próprias histórias e reputações. Quebrando o feitiço de nosso “Nome Verdadeiro” e usar identidades escolhidas por nós mesmos, específicas por atividade, nos permite limitar a habilidade de nossos oponentes de atrelar todas as nossas ações à coleira que nos amarra a eles e ao mesmo tempo utilizarmos as funções que nomes e identidades provém. Esses pseudônimos não precisam ser registrados pelo Estado nem associados à nossa identidade verdadeira, desde que métodos específicos de garantia e aplicação de regras estejam disponíveis.


Anonimidade. Contrário à propaganda moderna, não há nada de errado com a anonimidade em si. Muitas de nossas ações e trocas não precisam ser reversíveis ou tem a habilidade de causar dano aos outros. Nesses casos é perfeitamente aceitável não ter nenhum nome ou identidade. Dada a estrutura de interação correta, não há necessidade de atribuição alguma.

O exemplo mais proeminente de uma área onde o anonimato é prático e útil é a comunicação digital. Enquanto podemos escolher ser um pseudônimo para partes que desejamos que nos conheçam, todas as outras partes não deveriam saber quem está agindo. Para essas partes nós permanecemos anônimos.


Opacidade. A maioria de nós foi treinada a ver qualquer segredo e não-transparência como uma ameaça. Pensar a respeito disso deve rapidamente revelar que uma oposição tão abrangente a segredos é uma idiotice, sem qualquer justificativa. Devido às tendências totalitárias da cultura vigente e organização política - o desejo de controlar os outros - segredos se tornaram algo a abolir.

Segredos por si só nunca são um problema, é a fraude e a coerção que eles poderiam esconder que são fonte de perigo. Quando nós projetamos nossos sistemas de forma que as partes diretamente e voluntariamente envolvidas são os únicos que podem ser afetados de forma relevante, se torna claro que essas partes podem manter um segredo entre elas contra todas as outras partes que não estão diretamente envolvidas.

Logo, opacidade de ação em relação a partes não afetadas pode nos proteger de intervenção de terceiros e punição sem trazer perigos adicionais. Não há justificativa para qualquer um que não o comprador e o vendedor, saber quem está vendendo o que para quem. Ninguém precisa saber o que a pessoa A diz para a pessoa B se nenhum interesse de outra pessoa está ameaçado.

Já que nós utilizamos a palavra “justificado” ou “justificativa” repetidamente acima, sejamos claros do que ela significa: Nosso conhecimento das ações - ou nosso envolvimento com elas - é apenas justificado se elas envolvem nossa propriedade ou acordos conflitantes que tenhamos com qualquer uma das partes atuantes. Qualquer coisa que não envolva qualquer uma dessas coisas - propriedade ou contrato - simplesmente não é da nossa conta.

Esconder ações e informação da vista de terceiros impede os mesmos de adquirir uma vantagem que pode ser usada contra nós - tanto por coletar evidência ou por descobrir pistas que os possibilite intervir em situações futuras.


Irrastreabilidade. Enquanto caso especial de opacidade, e portanto já discutido antes, isso merece nota por si só. A irrastreabilidade se refere à função da qual o movimento de um objeto de um dono para outro, de um local para outro ou de uma condição para outra, se mantém oculta de qualquer parte que não tenha justificada necessidade de ter essa informação.

Isso impede agressores de revelar informações ao ligar várias trocas ou pedaços de informação e, novamente, serve para minimizar a evidência que pode ser coletada ou pistas a serem seguidas.


Compartimentalização. Novamente, é a atitude quase onipresente que rasteja em nossos subconscientes que nos traz ao bisbilhotamento, hierarquias de comando-e-controle e àquele sentimento estranho de que não pediram nossa permissão nem nos envolveram em tudo - mesmo quando não tem justificativa para sermos incluídos.

Em vez disso, deveríamos começar a apreciar a iniciativa individual e a competição de ideias e soluções sem que tudo seja planejado central ou coletivamente, amplamente difundido e perfeitamente sincronizado. Enquanto nossa curiosidade humana deseja ser fomentada é por vezes mais lucrativo separar nossas ações das dos outros de forma que um terceiro seja impedido de vigiar o processo todo ou de juntar informação o suficiente para agir contra nós.


Negabilidade. Se todos os esforços anteriores em impedir que nossos oponentes tenham uma visão clara do que fazemos falharem, se faz necessário que ao menos os impeçamos de usar essa informação contra nós como indivíduos. É aqui que entra a negabilidade e também coloca todos os outros métodos em contexto.

Ser capaz de negar nosso envolvimento em uma ação específica de forma plausível deixa mais difícil que um terceiro nos acuse com convicção, assim evitando sermos lesados quando todo o resto falhar.


Os conceitos introduzidos acima - Negabilidade, Opacidade, Irrastreabilidade, Compartimentalização, Anonimidade e Pseudonimidade ^[Mnemônico: NO, I CAP] - aplicados nessa ordem, são o antídoto para a onisciência imaginária de nossos oponentes. Em vez de dispersar a informação por toda parte e deixar para trás rastros a cada movimento, a base disso é o Princípio da Necessidade-de-Saber. É necessário limitar a informação ao mínimo do mínimo para as partes convidadas e envolvidas. A informação justamente requerida pode, e vai, variar caso a caso, mas partes não convidadas nem afetadas devem ser impedidas de obter qualquer informação significante ou usar de dedução à conclusões potencialmente danosas. A arte de implementar os objetivos de “Necessidade-de-Saber” é comumente conhecido como Tradecraft.


Usar a estratégia de informação mínima traz alguns riscos próprios.

Primeiro, pode ser contraprodutivo para a coesão social dentro da nossa subcultura e grupos sociais. Isso requer que nós não deixemos que a paranóia nos governe e nem que a segurança se torne uma religião. Uma contramedida a esse tipo de risco é a especialização descrita na próxima seção.

O segundo risco é o de que nós negligenciemos a necessidade de evidências para viabilizar nosso sistema interno de justiça. Há duas soluções para isso. Uma é que nós devemos projetar métodos de interação que limitam drasticamente o potencial para comportamento criminoso ou outrora prejudicial. Alguns desses métodos são mencionados mais além.

Outra forma é lembrar-nos que a evidência não precisa estar disponível publicamente sem que uma parte envolvida denuncie uma transgressão. Nós podemos projetar nossos sistemas de forma que apenas as partes afetadas podem recorrer à evidência revelada sob demanda para que possa ser apresentada à mediação ou procedimento de arbitragem.

Cabe a nós projetar formas de interação não baseadas no pensamento coletivista mas na responsabilidade individual. Enquanto isso pode soar impossível, não é: Muitos desses métodos e processos estavam em uso antes dos Estados fortes e a cultura coletivista imperarem - apenas temos que redescobri-los.

Especialização

Uma boa aplicação de Tradecraft nos apresenta dois desafios. Se por um lado muito tradecraft pode ser contraprodutivo para a coesão social e organização. Por outro lado, é difícil que todos os indivíduos dominem a arte do tradecraft em todas as situações.

A solução para esse desafio é a especialização. Empreendedores podem ser excelentes em prover serviços de Tradecraft para outros agentes no mercado ao criar formas de comunicação oculta, salas-de-troca opacas, transporte irrastreável ou pseudônimos assegurados. Isso livra os outros agentes de ter que investir nessas habilidades e impede que a cultura da paranoia engesse tudo o que fazemos. Porém, a especialização não pode servir de desculpa para que qualquer um ignore esse assunto ou baixe a guarda para essa necessidade.


Outra área única para a nossa situação é a integração no cenário econômico maior. Já que tamanho de mercado e diversidade suficientes só podem ser esperados no longo prazo, nos obrigamos a interagir e integrar com outros mercados a não ser que fiquemos numa economia de subsistência. No entanto, essa integração vem com um alto risco.

Estes fatos abrem espaço para uma carreira que é especialmente interessante para pessoas que não encontraram uma vocação (ou que deixaram uma vocação anterior) e estão procurando por oportunidades de baixo investimento: O mercador-intermediário.

Um mercador-intermediário é uma ponte conectando a Segunda Esfera à Primeira Esfera enquanto minimiza riscos. Muitas formas de união são concebíveis, de pessoas que manejam trocas entre dinheiro da Segunda Esfera e moedas oficiais até agentes de compra e troca. Nós deixamos ao leitor que invente seu próprio nicho.

Segurança e Defesa

Vamos encarar os fatos: Ambas a Primeira e Segunda Esferas não são campos floridos onde nada dá errado e apenas pessoas bem intencionadas e pacíficas vagam.

Enquanto a maioria das pessoas na maior parte do tempo não são violentas e não participam pessoalmente de roubo (a maioria terceiriza para os fiscais do governo), existem alguns que empregam força para atingir seus objetivos.


Aos olhos da Primeira Esfera, a Segunda Esfera é território sem lei e habitado por foras-da-lei - e isso é exatamente a visão que outros fora-da-lei terão também. Nós não podemos e nem devemos empregar a proteção e “serviços” de segurança da Primeira Esfera a não ser que abramos mão de nossa independência. Logo, se faz necessário a nós, prover esses serviços nós mesmos e desenvolver uma mentalidade para contrapor essa ideia. Já que esse assunto não pode ser coberto completamente neste livro, nós vamos apenas iniciar o dialogo e convidar empreendedores dessa área que dêem continuidade.


A segurança começa com a manutenção da paz. Enquanto isso pode soar óbvio é, no entanto, muitas vezes esquecido. Manter a paz significa que alguém está empenhado em não começar encrenca e ficar fora de risco antes que um conflito possa começar ou escalar. Nós devemos evitar provocar outros a nos atacar pelo comportamento que demonstramos. Começa por não empregarmos violência nós mesmos a não ser que aconteça em legítima-defesa, não passando outros para trás, não quebrando acordos, não se gabando e desafiando. Tranquilidade, integridade e honestidade combinadas com confiança reduzem o risco de conflito imensamente.


Ser apenas passivo, no entanto, não ajuda. Uma defesa de sucesso começa com preparação e ações preventivas. Isso não só inclui o preparo de instalações defensivas, mas também a escolha de local e especialmente a limitação ativa de coleta de inteligência hostil por potenciais adversários.

Além disso, é lucrativo empregar atividades de contrainteligência discretas para desenvolver uma visão geral das ameaças em potencial e a habilidade de detectar ações contra nós antes que sejam executadas.


Escolha de locais para nossas zonas autônomas temporárias é uma tarefa crucial. Três fatores devem ser enfatizados aqui.

Primeiro, nossas instalações e propriedade podem ser convidativas ou desinteressantes a agressores. Claro que uma grande placa escrito “Território fora-da-lei para capitalistas ricos” é uma má idéia, mas atributos mais sutis também podem igualmente ser problema.

Segundo, nossa primeira linha de defesa é o controle de acesso. Todo dono de boate sabe que bons seguranças mantêm os incômodos do lado de fora. Ser cauteloso sobre quem entra em nossos locais reduz drasticamente o risco de surpresas desagradáveis.

Terceiro, caminhos para se chegar a um lugar protegido devem ser conhecidos, observados e controlados. Saber que um ataque é iminente e ser capaz de tanto atrasar o atacante como saber de quais direções ele pode atacar nos coloca em uma posição muito mais favorável do que nos entregarmos de bandeja.


Para dar um exemplo quase perfeito de tal lugar vamos descrever uma boate exclusiva localizada numa grande cidade na Europa. ^[Esse lugar ainda está operando durante a escrita desse livro.]

As salas da boate são no andar mais alto de um arranha-céus de 20-e-tantos andares numa área comercial. Há três formas de se chegar ao local - um elevador, duas escadas de emergência e o heliponto no terraço.

O elevador e as escadas são guardadas por seguranças durante os horários comerciais da boate e equipadas com um sistema de câmeras controlado de dentro do perímetro da boate. O único jeito de entrar em uma das salas para um visitante comum é ligar para a boate enquanto aguarda pelo elevador no térreo, e se o acesso for permitido, o elevador é enviado para baixo com um ascensorista que então destrava o terraço com uma chave.

O andar debaixo é um escritório com horários comerciais diferentes que é integrado ao sistema de alarme da boate.

Em caso de invasão, os atacantes podem ser atrasados por vários minutos enquanto todo mundo dentro da boate é notificado imediatamente. Potenciais encrenqueiros podem ser repelidos de longe da zona protegida. Isso mantém o local pacífico enquanto permite que qualquer pessoa tome as devidas providências antes que os atacantes entrem no local. Idealmente, alguns procedimentos de evacuação envolvendo o heliponto podem ser implementados. Quaisquer ataques que não sejam de aniquilação total (como bombardeios) são quase impossíveis.

Isso é obviamente uma operação muito elaborada e cara, mas pode servir de inspiração para a sua própria operação.

Para mais informações, voltar à seção sobre Zonas Autônomas Temporárias .


E se um ataque realmente acontecer? Como já mencionado acima, a defesa contra um agente do Estado pode apenas consistir em atrasá-lo, ou temporariamente afastá-lo. Não se pode ganhar contra um Estado enorme - apenas morrer tentando. Tudo o que se pode fazer é limitar o impacto de uma invasão ao separar as evidências das pessoas em risco (Negabilidade) e ao escapar e se recuperar mais tarde.

Em caso de outro fora-da-lei atacando, uma análise séria de custo-benefício deve ser feita e levada a uma defesa ativa e orientada à vitória. Antes que os pensamentos de alguém se percam aqui, vamos deixar claro que não estamos falando em entrar em guerra com contra-ataque no território adversário e tudo. É sobre limitar o estrago, não grandes vitórias como cobertas em livros de história.


Sem ir muito fundo no assunto, vale notar que a questão de defesa coordenada é mais difícil para uma sociedade individualista do que para uma coletivista.

O motivo disso é que a defesa é um jogo de números. O número, a força e a preparação das forças envolvidas assim como a habilidade de se coordenar rapidamente decidem o sucesso de qualquer tipo de impasse. De fato requer que indivíduos deleguem a liderança de forças da quais fazem parte - coisa que apenas alguns de nós estão preparados ou dispostos a fazer. Porém, pensar profundamente no problema em questão pode servir de preparação para isso. Defesa efetiva é baseada em mobilidade e flexibilidade, o agrupamento, regrupamento e dispersão dinâmica de agentes assim como a centralização sob demanda e descentralização de comando para o nível necessário de hierarquia.

Se necessita desenvolver estratégias nessa área que sejam conhecidas por aqueles que se empenham em participar dessas ações - caso se façam necessárias - de forma que o consentimento individual em apoiar e participar podem ser garantidos e torne-se possível uma estimativa realista de recursos disponíveis.


Do exposto acima, ja deveria ser óbvio que essa é uma área de especialização onde empreendedores podem ganhar a vida, como já é feito hoje. Também deveria ser óbvio que esses serviços precisam ser contratados por nós e não ignorados.


Para inspirar empreendedores em potencial nessa indústria que queiram ser ativos na Segunda Esfera, duas tecnologias devem se fazer presentes que prometem ser úteis para nossa situação específica:

Controle de Acesso Anônimo e Remoto

Um dia haverão batidas na porta de um de nossos locais protegidos: “Polícia, nós temos um mandato de busca”. Agora é a hora que o frio provedor de segurança da Segunda Esfera prova o quanto vale: Gadosamente apertar o botão para abrir a porta e botar em perigo todos que estão dentro, ou não fazer nada além de enviar um aviso para todos e deixar que os atacantes descubram uma forma de atravessar o portão reforçado de concreto. A combinação de um sistema de câmeras e a comunicação anônima reduz imensamente as consequências para o segurança remoto e lhe dá a liberdade de agir de acordo com o interesse de seus clientes. Para adicionar ainda mais segurança, múltiplos operadores anônimos localizados em diferentes locais desconhecidos poderiam ser necessários para concordar em uma ação, assim nem infiltração, propina, chantagem ou puro medo podem comprometer a segurança da zona autônoma temporária.

Sistemas de Defesa Anônimos Remotos

Em um futuro mais distante, os sistemas de controle de acesso citados anteriormente poderiam ser estendidos para incorporar sistemas ativos de defesa quase-letais. As plataformas de armas robóticas atualmente disponíveis similares as aquelas usadas na fronteira entre as Coréias poderiam ser integradas ao arsenal de empresas especializadas em defender zonas autônomas. Novamente, comunicação anônima e sensores remotos são a fundação, mas dessa vez estendido à atribuição aleatória de tarefas a operadores anônimos remotos para que se torne impossível que um terceiro encontre provas de quem puxou o gatilho para afastar a gangue de rua atacante.


Contrário ao que a maioria está acostumado, segurança não é nada que deva ser apenas feito por especialistas e profissionais, mesmo que a indústria de segurança e defesa forneça serviços especializados. Para preservar a autonomia a longo prazo é necessário contrabalancear o poder que qualquer provedor de segurança e defesa possa acumular. Enquanto deve-se estar preparado para buscar serviços de segurança no mercado, e logo pagar por eles, também faz-se necessário ter um contra-peso para nos piores casos nos quais um provedor de segurança tenta monopolizar sua posição.

O método comprovado pelo tempo é não desistir de sua própria preparação e habilidades de defesa. Todos deviam estar preparados para resistir um provedor de segurança, dispostos a fazê-lo o quanto antes for necessário, e estar eternamente vigilante para não deixar que tal ameaça potencial passe despercebida. Isso, claro, requer ação coordenada por muitos já que uma pessoa só não poderá conter tal perigo sozinho. Portanto deve ser parte da nossa cultura ficar de olho naqueles que pagamos para nos defender. Lembre-se: É crucial para uma liberdade duradoura e estável da Segunda Esfera que todos estejam dispostos, atentos e capazes de aguentar tentativas de monopolizar sua indústria por parte dos provedores de segurança.


Não se deixe assustar pela seção anterior. Medidas ativas de defesa são comuns e frequentemente passam despercebidas pela maioria das pessoas. Seja no setor de boates, indústria de acompanhantes ou seguranças - na maior parte do tempo nada acontece, e no resto acontecem apenas pequenos problemas. A vida é muito diferente do que é mostrado na TV. Na maioria dos países menos desenvolvidos é mais comum, já que o governo não se esforça para proteger um fora-da-lei de outro, ou até proteger o público dos fora-da-lei.

Estar preparado, e agressores sabendo que você está, elimina a maior parte do risco da jogada. Isso é verdadeiro para qualquer agressor em potencial - Estado ou não. Vamos torcer para que a preparação seja o suficiente.

As Bênçãos da Tecnologia

Muitas das tarefas que nos confrontam parecem ser impossíveis de resolver no primeiro momento. E apenas algumas décadas atrás isso seria uma avaliação correta da situação. Por nossa sorte, os avanços da tecnologia dos últimos trinta anos nos abriram novas oportunidades.

Duas áreas nas quais a tecnologia pode nos ajudar serão exploradas a seguir.


A opressão pela Primeira Esfera nos força a empregar métodos para esconder nossas ações e não deixar evidências.

Tecnologias de comunicação anônima - muitas das quais estão disponíveis agora - nos permitem enviar e receber mensagens, navegar na internet e oferecer serviços digitais de forma que nem o remetente nem o destinatário podem ser identificados por terceiros.

Sistemas de dark-net nos dão a vantagem que precisamos para operar nossos próprios acessos controlados e redes de comunicação anônima como uma camada invisível sobre a internet.

Criptografia nos permite enviar mensagens que apenas os destinatários pretendidos possam ler.

Assinaturas digitais nos possibilitam assinar contratos de forma infalsificável para que comércio remoto e pseudônimo possa ser implementado.

Dinheiro digital anônimo e irrastreável torna nossas transações invisíveis para quem está de fora e impede qualquer tentativa de congelar nossos bens ou identificar o volume ou as partes envolvidas em nossas trocas.

Mobilidade e operação remota nos dá o poder de agir sem estar fisicamente presente, removendo os operadores dos ambientes de alto risco e tornando possíveis coisas como contra-espionagem segura, acesso físico resistente a chantagens e máquinas físicas de comércio.

Compartilhamento de segredos e divisão de segredos nos dão oportunidades de distribuir decisões e segredos para várias partes que podem apenas agir quando um limiar de concordância é atingido. Isso pode ser usado para criar ambos sistemas de garantia seguros e pseudônimos fortes que podem carregar uma reputação de longo prazo.

Consentimento distribuído, é a habilidade de disparar uma ação apenas se partes, muitas vezes anônimas, remotas e predefinidas concordem com a ação. Isso torna operações de coerção, chantagem e infiltração contra nós muito mais difíceis, enquanto dá às partes envolvidas uma negabilidade plausível.

Geocaching nos oferece algumas soluções para trocas físicas nas quais a parte vendedora está em risco. Colocar objetos em um local escondido e comunicar as coordenadas para o comprador mais tarde, permite que bens passem de mãos sem que ambas as partes tenham que se encontrar.


No entanto, essas tecnologias vem com uma desvantagem quando nós temos que garantir contratos e desincentivar fraude em nossos grupos. Nossa linha de pensamento em criar evidências para mediação e casos de arbitragem, assim como a garantia de contratos, tem que mudar.

Garantias vinculadas são esquemas onde a pena máxima que pode ocorrer em uma troca fraudulenta precisa ser garantida pela parte de alta reputação e alcance. Isso nos permite garantir contratos mesmo se uma ou mais partes envolvidas desaparecer na neblina do anonimato após cometer seus crimes, tornando a fraude antieconômica.

Selos de segurança únicos invioláveis que são difíceis de falsificar e são destruídos ao violar combinados com uma gravação de vídeo com assinatura temporal e vários esquemas de pergunta de segurança nos permitem criar evidências bem seguras no caso de precisarmos provar que o bem alcançou a qualidade e quantidade do que foi combinado. Junto a garantias vinculadas e entrega em geocache, esse é um dos esquemas de troca de bens anônima sem botar o vendedor em risco de ser capturado ou o comprador em risco de fraude.

Como regra geral nós precisamos encontrar meios de criar evidência necessária para potenciais processos de resolução de conflito sem entregar nossas identidades a terceiros não convidados. Vários desses métodos já foram encontrados, mas não é o propósito deste livro entrar em muito detalhe além de demonstrar a viabilidade dessa estratégia e inspirar pessoas a encontrarem suas próprias soluções no campo tático.

Serviços Compartilhados

Na Primeira Esfera esses a seguir são chamados de “serviços institucionais” e apenas providos “oficialmente” e com licenças para legitimar o controle exercido. As instituições se tornam organismos sociais por conta própria, se isolando de competição e abolimento.

Na Segunda Esfera, competição, diversidade e escolha são a regra, que é o motivo de chamarmos esses de “serviços compartilhados”.


A vida em si, e especialmente a estratégia de oposição, trás consigo uma variedade de riscos. Enquanto muitos desses riscos podem ser limitados ou mitigados, viver e agir sem assumir risco algum é impossível. Apenas pessoas de alta independência financeira podem encarar esses riscos por conta própria - ou pelo menos acreditam que podem.

É crucial que criemos soluções para esse problema ao estabelecer redes de ajuda mútua. Existem dois motivos para isso:

Primeiro, nós temos que permitir que pessoas não precisem cair de volta no sistema de bem-estar social controlados pelo governo em caso de desastre. A liberdade requer uma separação do Estado nessas áreas também: “Para ser livre, o escravo deve primeiro recusar a esmola do mestre.”

Contrário às ofertas do Estado, essa área precisa estar coberta pelos empreendedores e acordos de ajuda mútua a nível social. Ajudar nossos amigos necessitados enquanto ao mesmo tempo os encorajamos e os ajudamos a ajudarem a si mesmos, deve ser nosso objetivo. Se isso é melhor alcançado por operações comerciais ou a nível social, ainda está para ser descoberto - pelo mercado. No entanto, nada no mercado acontece sem ser lucrativo ou com empreendedores sociais agindo e implementando soluções.

Já que nós somos confrontados através de opressão Estatal, temos um conjunto bem específico de riscos a serem encarados e resolvidos. Algumas coisas que fazemos podem levar indivíduos a enfrentarem a fúria da Primeira Esfera, seja aprisionamento ou expropriação de bens. Para permitir que pessoas dêem os passos necessários, compartilhamento de riscos na forma de seguros para nossos negócios são essenciais. Pode ser pouca coisa como “suporte emocional” ao visitar prisioneiros, ou melhor ajudando a pagar advogados e suporte econômico para as famílias em casa. Além da melhora na habilidade dos indivíduos de tomar mais riscos, isso também ajuda provendo uma maior coesão social. Mesmo assim, deve-se tomar cuidado para não encorajar as pessoas a assumirem riscos de forma indiscriminada ou se tornarem dependentes apenas da ajuda provida a eles pela sociedade da Segunda Esfera.


Sistemas internos de justiça são outro exemplo de serviços compartilhados. Nós não vamos para um futuro utópico onde a fraude, o roubo e a agressão desaparecem. Em vez disso, temos que encontrar formas de prover sistemas de resolução de conflitos, garantias e restituições.

Isso requer formas seguras de registrar contratos e reter evidências no caso de desentendimentos sem o risco de terceiros não convidados obterem qualquer informação.

Ao usar esses registros de contrato e sistemas de retenção de evidências, as partes afetadas podem pedir por provedores de mediação e arbitragem e entregar todos os fatos necessários para decidir o caso. Junto com serviços de garantia (escrow) e vínculo (bonding), a garantia de contrato se torna viável sem necessidade de aplicação agressiva de leis em esferas comerciais. Além disso, sistemas robustos de pseudônimos e reputação podem prover meios de reduzir um risco futuro de agentes questionáveis e servir de inibidor contra violações repetidas.


Pontos de troca que provêem caixas de depósito anônimas que são acessíveis por um vínculo digital negociável, são uma solução para proteger ambos comprador e vendedor, ao reduzir a necessidade de conduzir vendas pessoalmente.

Outra ideia é o uso de “mesas de troca” que são acessíveis dos dois lados apenas por corredores difíceis de vigiar e que tem uma barreira entre as partes que não pode ser facilmente transposta e que protege a identidade de ambas as partes. Comprador e vendedor se seguram um ao outro com uma mão durante a troca, impedindo um lado de sair correndo enquanto a troca está pela metade, e usam a outra mão para mover os bens entre eles. Essencialmente essas mesas de troca lembrariam o caixa do banco, mas protegendo ambas as partes igualmente.

Ambos os serviços poderiam ser providos por clubes de negócio competidores ou salões de troca que não só se diferem no preço mas também nos métodos que provêem para trocas seguras.


Outra instituição provida pelo sistema Estatal que deve ser substituída pelos serviços compartilhados da Segunda Esfera é o dinheiro, a sua transferência e liquidação. Dinheiro é um símbolo cultural incrivelmente poderoso que oferece formas de reconhecimento mútuo e pode representar os valores centrais de uma sociedade.

É provável que a Segunda Esfera foque em moedas independentes, provavelmente pesos de ouro ou prata, e deveria fazê-lo para se separar da Primeira Esfera. Além disso, dinheiro digital anônimo e sistemas de transação podem superar limitações geográficas, regulação e controle da Primeira Esfera.

Converter o dinheiro da Primeira Esfera para o da Segunda Esfera, e servir de ponte entre dinheiro físico e digital é uma tarefa que faz necessário um tipo especial de empreendedor: O cambista informal. Um cambista informal vai comprar e vender uma moeda pela outra, com a transação tendo liquidez imediata para o cliente.

Enquanto esse segmento vem com alguns riscos definidos, também é acessível a pessoas de capital ou reputação limitados, já que não há rastro e os riscos de falta de liquidez são mínimos. Redes de cambistas informais conectados por moedas digitais permitem transferências de valor globais quase imediatas com o mínimo de custo e baixo risco ao cliente, tornando a Segunda Esfera virtualmente independente do dinheiro e bancos controlados pelo Estado.

Segurança Por Penalidades Financeiras

Como nota de encerramento desse capítulo é importante relembrar que penalidades financeiras sozinhas não são suficientes para prover segurança em trocas e comércio.

O Estado é um oponente de bolsos fundos que pode exceder nossa oferta e travar a guerra de recursos contra os sistemas de garantia (escrow) e vínculo (bonding).

Então também é necessária a criação de um sistema social que se mantém ciente dessa ameaça e deixa a vantagem nas nossas mãos, caso contrário desperdiçaremos recursos.

A Segunda Esfera - Filosofia

Até agora esse texto lidou com assuntos um pouco deprimentes como segurança, defesa, análise da nossa situação e a ameaça de opressão que enfrentamos.

Neste capítulo o foco será nos porquês fundamentais, a motivação de escolher essa luta, e o que isso nos promete.


Por que todo esse trabalho? Nós já não somos livres? Nós já não desfrutamos de um alto nível de prosperidade?

Porque nós não somos tão livres quanto deveríamos ser. E o que é essa tal Liberdade que nós falamos?

O que é Liberdade?

Sem nos aprofundar nas filosofias da liberdade aqui, têm-se que diferenciar entre duas maiores vertentes do pensamento “libertário”. Uma é o argumento da consequência, de que uma maior liberdade aumenta a prosperidade e esse é um objetivo a ser almejado para que a fome e outros perigos desapareçam. Enquanto concordamos que esse fim é preferível, nosso argumento é outro: O de que a liberdade é preferível por si só, sendo o objetivo final.


A base para a liberdade é uma palavra pequena porém poderosa: Autonomia. A qual vem do grego “autos”, significando “Própria”, e “nomos” significando “Lei”. Se refere à habilidade, direito ou desejo de algo a ser governado por sua própria lei. Então Anarquismo não é o que a mídia nos diz - a presença de caos ou um estado de ausência da lei - mas em vez disso a presença da lei escolhida por aqueles que estão sob a mesma, contrário à lei imposta por um regente ao um povo de súditos (Anarquia: Sem mestres). Nós vamos nos referir a Autonomia nesse sentido.


O axioma ético básico da Liberdade é a Autonomia Individual - que cada e toda pessoa tem o direito (ou seja: “é moralmente justificada”) a ser a autoridade final sobre a lei que escolhe para si, e que qualquer violação desse direito é um crime.

É importante perceber que esse axioma da autonomia individual implica em várias coisas.

Primeira, que a autonomia só se aplica à pessoa assegurando esse direito para si mesma, ela não implica no direito de governar outros. Ao tomar decisões sobre as regras que me governam, eu também não posso escolher quais regras vão afetar os outros. É apenas o “autos”, eu mesmo, que tenho obrigações à lei - ninguém mais.

Segunda, que ao assegurar esse direito eu também tenho que ceder esse direito aos outros. Isso significa que sob nenhuma circunstância minhas ações devem sobrepôr a autonomia de outrem.

Terceira, que a autonomia lida com regras que escolhemos como princípios de nos auto governar, mas essas regras não tem que ser concebidas nem podemos forçar outra pessoa a garantir a lei para com nós mesmos ou o universo. Quer gostemos ou não, a concepção de nossas regras é limitada pelas leis da natureza. Enquanto podemos decidir que a gravidade não se aplica a nós, isso não muda a aplicabilidade da gravidade. Também, não podemos forçar os outros a fazer nossas regras funcionarem por nós, já que isso violaria suas autonomias. No máximo podemos pedir ajuda - não obrigá-las. Apenas decidir que sempre vamos comer o que queremos não obriga ninguém a nos prover a comida, ou o universo a se tornar uma grande dispensa.


Já que a aplicação da autonomia individual tem esses limites implícitos, e porque múltiplos indivíduos autônomos podem criar leis conflitantes, se faz necessário delimitar até onde se pode exercer sua autonomia.

Esse escopo da autonomia é conhecido como “propriedade”. São os limites físicos nas quais a pessoa é a única fonte da lei. São físicos porque apenas a interação física pode limitar a autonomia de outro ser físico. E é necessária para que indivíduos tenham espaço para decidir por si mesmos e saber se suas decisões são justificadas.

Qualquer tentativa de negar o conceito de propriedade individual e física é um ataque ao conceito de autonomia individual. Ambas são interligadas de forma inseparável no universo em que vivemos.


Isso nos leva à segunda afirmação fundamental sobre liberdade. Liberdade não é independência pura ou auto-sustentabilidade. Já que a maioria de nós não consegue satisfazer nossas necessidades e desejos por nós mesmos, e porque nossos escopos de autonomia fazem fronteira uns nos outros, necessitamos de interação com as pessoas - acasalar, fazer trocas, socializar, etc.

A única forma possível de fazer isso enquanto se preserva a autonomia individual é a interação de forma voluntária, significando que todos que interagem devem fazê-lo por vontade própria e que a única interação aceitável é uma na qual ambas as partes concordem completamente. Qualquer outra interação leva à violação da autonomia individual e deve ser considerada um crime.

Dito isso, é lógico que até a delegação temporária de decisões aos outros e qualquer tipo de contrato ou lei que escolhermos para grupos sociais deve ser unanimemente consensual por todas as partes delegantes ou delegadas, e todas as partes entrando num grupo ou formando um grupo que outros entrem. Qualquer coisa que não atenda esse padrão viola a autonomia individual. Onde não se pode chegar a um consenso, as partes conflitantes podem apenas encerrar sua interação e seguirem seus caminhos separados.


Autonomia Individual também é recíproca, como mencionado acima. Garantir esse direito também significa que nós temos que ceder esse direito aos outros, quando o negamos aos outros, o negamos a nós mesmos.

O que leva a três grandes consequências na interação social.

Primeira, qualquer violação da autonomia (crime) pode apenas ser respondido e punido por uma igual redução da autonomia da parte agressora e a restauração da autonomia da parte prejudicada. Crimes são, portanto, resolvidos primeiramente ressarcindo a vítima e apenas depois aplicando o mesmo mal ao agressor. Isso constitui a máxima básica da justiça sob a autonomia individual e a mais alta punição justificável em qualquer caso. Porém ela abre espaço para que a vítima perdoe o agressor a qualquer momento que desejar, ou a concordar voluntariamente com o mesmo em obter outra forma de restituição.

Segunda, a única parte a receber uma restituição é a vítima, a única parte a pagar uma restituição é o agressor - uma ação que não tem vítima não pode levar à punição. Qualquer outro tipo de justiça seria ela mesma criminosa, porque viola a autonomia individual das partes que não agiram.

Terceira, garantir a autonomia de alguém também implica no direito de defender-se contra violações desta sob os mesmos princípios de justiça mencionados acima. Para isso, um crime deve estar ocorrendo, e qualquer defesa deve ser relacionada à violação. Atirar em alguém porque ele pode ir a sua casa roubar algum dia não é permissível, e matar a pessoa por invasão também não.

Quarta, mesmo que alguém tenha violado sua autonomia ou que não tenha garantido sua própria, isso não implica que a pessoa não tenha uma autonomia que deva ser respeitada por nós. Um cobrador de impostos não perde seu direito à autonomia, e não é justificável enforcá-lo na árvore mais próxima. Assim como o subsídio de impostos roubados do seu bolso não te permite usar um serviço muito além da quantia justificada da qual você seria restituído.


Nós terminamos nossa excursão na filosofia da liberdade por aqui. Muitos pensamentos mais elaborados foram escritos por outras pessoas.

Em vez disso, deve-se parar por um minuto e refletir sobre o assunto. Isso faz sentido? Isso também não nos pede que vivamos dessa forma? Não é algo tão correto que exige nosso apoio?

O que é que a liberdade realmente nos dá? Certamente não é a prosperidade que faz dela tão importante para começar, apesar de ser um ótimo efeito colateral.

Por um lado, a liberdade é o fundamento de nossa humanidade. É o que nos leva a nos motivar, a termos determinação, mas também é o que nos permite interagir de forma agradável com os outros - Liberdade é Paz. Não a paz baseada em ameaças mútuas de aniquilação ou covardia, mas sim uma fundada no que nos faz especiais como humanos.

Liberdade é o que nos dá espaço para nos tornarmos mais humanos, para viver de acordo com nossas crenças éticas e morais, para progredir, para ter paz com os outros.


Para resumir, não se pode ser totalmente humano sem também estar em liberdade.


Primeiras Implicações

A ética da Autonomia Individual tem consequências para a cultura da Segunda Esfera, e as interações que temos com a Primeira Esfera.


Nós temos que respeitar a autonomia individual das pessoas da Primeira Esfera, e até as decisões que eles ingenuamente delegaram às instituições e governos fora de seu controle. Isso não significa que os sistemas resultantes disso sejam éticos, mas eles são a vontade de muitos. Logo, não cabe a nós destruir esses sistemas, mas, melhor que isso, oferecer alternativas éticas, abrir portas para a Segunda Esfera onde pessoas podem abraçar sua humanidade por completo através da liberdade.

Isso é necessário por vários motivos. Primeiro, isso nos permite manter a vantagem moral. Enquanto isso não é o motivo principal em si, justifica nossa posição e mostra respeito aos indivíduos “do lado de lá”, reduzindo a oposição emocional contra a Segunda Esfera. Segundo, é necessária a preservação da integridade ética da Segunda Esfera. Michael Gaddy disse: “O campo de batalha da liberdade é forrado de corpos dos que acreditam em concessões”. Concessões em nossas fundações éticas em relação à Primeira Esfera também vão manchar essas fundações na Segunda Esfera.

Isso nos motiva a manter a paz com a Primeira Esfera enquanto cabe a nós, a não interferir na Primeira Esfera, a manter as duas esferas radicalmente separadas. Não há espaço para impasse.


Esta separação estrita e o respeito pela autonomia individual também implica que nós não violamos as leis da Primeira Esfera sem necessidade, mas em vez disso nos isolemos completamente na Segunda Esfera ou vivamos uma vida dupla: Pagar impostos na Primeira Esfera e manter suas leis enquanto nós estamos por lá, e ignorar a Primeira Esfera sempre que estivermos na Segunda. Isso também inclui não nos beneficiar com a distribuição de espólios da Primeira Esfera e pagar pelos serviços que consumimos lá.

Enquanto essas sugestões podem doer aos muitos arco-libertários, elas não são injustificadas. Tal comportamento não só protege a autonomia da Segunda Esfera como também mostra respeito à autonomia individual dos habitantes da Primeira Esfera, mesmo que essa seja desperdiçada. Além do mais, isso nos ajuda a tomar a decisão de investir na Segunda Esfera e se mudar para lá de vez, nos removendo da Primeira Esfera. Para a maioria de nós a mudança da Primeira para a Segunda Esfera será progressiva - uma escala variável de radicalização e envolvimento. Alguns vão interromper os planos por vários motivos, acarretando efeitos colaterais.

A capacidade de implementar tal remoção progressiva e separação estrita faz necessária a delimitação entre as esferas. A mais clara dessas delimitações é que nossas zonas temporárias autônomas físicas e digitais e qualquer interação exclusiva entre habitantes da Segunda Esfera pertence apenas à mesma, com todo o resto estando na Primeira Esfera.

A Segunda Esfera - Cultura

Introdução

É fácil entender que o desenvolvimento de nossa própria cultura da Segunda Esfera é necessária - mas tentativas de artificialmente criar uma cultura não são apenas impossíveis, mas contra-produtivas.

Cultura é a ordem espontânea que é moldada por indivíduos de uma sociedade, refletindo suas decisões e mentalidades particulares.


No entanto há várias coisas que contribuem para a formação de uma cultura.

Uma das mais divertidas é a influência da arte, música e literatura que emana de um contexto cultural e o retro-alimenta. A imaginação de artistas se torna muitas vezes a inspiração de muitos. E vai ser muito animador ver a criatividade nessa área.

Outra influência é a da necessidade. A cultura determina e otimiza as interações sociais, as quais são moldadas pela realidade que aquela sociedade se encontra. Desafios e ameaças, mas também abundâncias e bênçãos, específicas do ambiente fluem para e através da cultura. Compare as canções de esperança do povo do deserto com as danças energéticas das tribos da selva.

Valores éticos, morais e religiosos são outro ponto a mencionar. Enquanto muitas vezes refletem a cultura já estabelecida, eles também tem como função serem fatores de fundação da cultura. Isso é evidente em culturas que não tiveram o processo de evolução por um longo período de tempo mas de forma rápida e abrupta, como a maior parte das américas.

O último grande fator que contribui para uma formação cultural nova se dá na forma de empreendedores culturais. É a sua ousadia, coragem, lucidez e criatividade que planta as primeiras sementes de movimentos culturais e funda novas sociedades. Aqueles que desejam participar da formação de uma cultura da Segunda Esfera devem fazê-lo com confiança e ousadia, mas também em apoio mútuo e encorajamento. Muitos experimentos e fracassos serão necessários antes que qualquer grande avanço seja feito, e inevitavelmente cada membro terá um dedo da formação de uma nova sociedade.


Por isso, devemos nos limitar a contribuir aos fatores de necessidade e valores éticos neste texto, mas não podemos deixar de permitir que nossos sonhos fluam em nossas contribuições.

A Pintura do Cenário

O primeiro fator decisivo para a cultura da Segunda Esfera é a sua identidade dupla, que consiste tanto de oposição à Primeira Esfera, quanto à adoção, até celebração, da liberdade e seus valores.

Enquanto por um lado somos foras-da-lei, não somos miseráveis. Somos animados, cheios de cor mas também foras-da-lei sérios e realistas.

Nossa sociedade não é homogênea, hierarquias são quase inexistentes. Onde existem hierarquias essas se dão pela autoridade do conhecimento, ação, caráter e existem apenas enquanto são ativamente apoiadas por quem afetam, que normalmente não é por muito tempo.

Em vez disso, associações voluntárias que diferem em estilo e comportamento são atribuídas em uma rede de laços mútuos, votos e reputações pessoais. Ninguém lidera, mas muitos inspiram. É uma sociedade dinâmica, fechada, paralela, às vezes escondida - uma cripto-sociedade - mas sempre uma sociedade de foras-da-lei animados que valorizam o respeito mútuo.


Reputação e respeito são provavelmente os aspectos de unificação mais fortes. Enquanto o respeito é de boa vontade estendido até que se prove desmerecido, a reputação deve ser conquistada pelo comportamento ético e empreendedorismo. Nós saudamos aqueles de nós que são bem sucedidos, que assumem riscos, e aqueles que se levantam após os fracassos. Honestidade e contratos são sagrados, e segredos são respeitados não só por proteger mas também por apimentar a vida.

Nem a reputação nem o respeito são palavras vazias para nós. São nossas formas de vínculo e ajuda ao desenvolvimento mútuo. Nós as comunicamos tangencialmente, ao atestar pelos outros, subscrevermos, e estender vínculos para proteger nossos pares e parceiros de negócio. Nessa rede de relações tangíveis, as pessoas se colocam em uma escala de abundância, mas também excluem e acertam as contas rapidamente com malfeitores e golpistas.


Nós também respeitamos a propriedade sem nos tornarmos escravos de nossos anfitriões. Todo mundo deixa bem claro onde suas fronteiras estão, e permissão para entrar é requisitada e regras locais respeitadas. Muitos usam de símbolos amplamente compreendidos para comunicar rapidamente o que pode e o que não pode ser tolerado em suas propriedades.

Repare, no entanto, que ninguém tem que pedir permissão além disso, ou para fazer como deseja com aquilo que é seu. Ninguém deve ser consultado ou licenças devem ser obtidas. Indivíduos operam por conta própria, descentralizados, espontâneos - é mais fácil pedir perdão por erros honestos do que permissão. Mas nós não faltamos com respeito à ordens e regras aceitas. Criminosos devem passar por julgamento de seus esquemas, e ladrões espertinhos normalmente acordam com suas restituições justas em posse de suas vítimas.

Aqueles que vem para destruir nossa sociedade não são recebidos com tochas, mas são amplamente evitados e isolados em ostracismo, e frequentemente encontra suas fotos em cartazes nas entradas de nossas zonas, algumas anexadas a anotações não muito amigáveis.


Respeito pela propriedade não se estende apenas a territórios físicos que ocupemos; ele é integral às partes menos visíveis de nosso mundo, muito do qual ainda se mantém oculto aos vigilantes, escondido atrás de comunicação digital, criptografada e anônima. Isso nos conecta e cria outra esfera onde a propriedade é a privacidade.

Nós protegemos nossos segredos, os valorizamos. Proteger nossa privacidade se torna natural para nós, nos liberta dos olhos famintos de nossos inimigos. Mas nossa privacidade também é um símbolo chave para a autonomia que vivemos. Nós estamos tomando de volta o que o mundo externo totalitário roubou de nós. O que cercas são para átomos, a tecnologia de privacidade de dados é para os bits e bytes. Nós afirmamos que ambas, nossa privacidade e nossa autonomia, nos pertencem e somente a nós: Esse é nosso lugar.


Nossos locais de comércio incitam espanto em nossos visitantes. Como uma cultura em exílio, nós desenvolvemos práticas incomuns de trocas, alguns de nós especializados em Tradecraft. Seja ao usar máscaras ao fechar um negócio ou apertos de mão às cegas para se chegar a um preço, isso é apenas parte de tudo que acontece. A maioria das trocas acontece no cyberespaço, apoiadas por vínculos e reputações se estendendo do bar do comerciante onde nos encontramos cara a cara, até às profundezas das plataformas seguras de mediação e garantia (escrow).


Bisbilhotar as conversas em uma de nossas boates irrita o neófito. Palavras e costumes que são desconhecidos para a sujeira da Primeira Esfera, e uma disputa ocasional salpicada de palavrões como “Estatista”, “burocrata” ou “parasita”. De qualquer forma, a pessoa novata será bem-vinda e ensinada, e dada a oportunidade de se provar - caso demonstre vontade e habilidade.


Nem todos nós vivemos aqui a toda a hora. Muitos levam uma vida dupla com uma visita ocasional aos mercados onde são saudados por seus pseudônimos. Outros operam seus negócios parte do dia na Primeira Esfera, e abrem a loja na Segunda Esfera após o pôr do sol. Ainda outros são verdadeiros fantasmas para a Primeira Esfera, não tendo nenhum rastro por lá a não ser ao ir de uma zona autônoma até outra, alguns deles aperfeiçoando seu estilo de vida ao nosso mundo, mas outros que já não aguentam mais a futilidade do outro lado.


Nós somos tribos de mente e alma, não definidas por nação ou raça, mas apenas por pensamento e essência. Estamos por toda parte - e estamos aqui para ficar.


Se você esperava um manual de apertos de mão secretos, de palavras para usar, moda para vestir, música a se ouvir e opiniões necessárias - você deve estar decepcionado agora.

Não é nosso trabalho criar essa cultura, empacotá-la e entregá-la na sua porta para você. É o seu trabalho, não o nosso, vivê-la.

Considerações Finais

O desenvolvimento de tribos da mente, a Segunda Esfera e a descentralização crescente da sociedade são inevitáveis, caso a humanidade dêva progredir e até sobreviver.

Podemos ver isso em múltiplas áreas, especialmente na globalização do comércio, no fracasso da grande mídia, na comunicação digital individual e na queda do nacionalismo. Hoje as pessoas se sentem mais próximas das outras que vivem do outro lado do globo e seguem idéias e culturas muito mais parecidas do que de seus vizinhos locais.


Esse processo natural de auto-libertação encontra oposição porque também quebra vários modelos de negócio, ameaça o parasitismo e o controle mental sobre a população, o que muitos sentem prazer ao fazê-lo. Esse processo também destrói o status quo e o conforto de todos que dependem dele, e acaba com o meme “todo mundo sofre igual” que leva muitos que foram prejudicados a perpetuar esse comportamento abusivo.


Enquanto essa pode ser uma afirmação enorme, é também verdade: Se nós não agirmos e implementarmos mais liberdade, os dias da humanidade podem muito bem estar contados.

Nós vivemos em tempos interessantes que vão moldar o futuro, e é nossa responsabilidade moldá-lo de uma forma humana, livre e ética. Ninguém mais vai, e é chegada a hora de parar de pedir permissão e inventar desculpas.

Se você já quis salvar o mundo - essa é a sua chance. E se você só quer viver de forma “correta” e não está interessado no grande esquema das coisas, essa é sua chance também.

Nós já mencionamos que vai ser divertido?

Próximos Passos

Caso você ache essa estratégia atraente, a questão de onde ir a partir daqui precisa ser respondida. Aqui estão algumas dicas de como prosseguir:

  1. Tenha como objetivo alcançar a liberdade com base nesta estratégia ou em uma variação dela.

  2. Diga aos outros que você está comprometido em ser ativo pela liberdade.

  3. Dedique regularmente parte do seu tempo para trabalhar na Segunda Esfera.

  4. Comece a economizar, então você pode investir dentro da Segunda Esfera quando tiver oportunidade.

  5. Leve a privacidade digital a sério. Comece a usar PGP, I2P e similares. Aprenda sobre comportamentos seguros.

  6. Existem algumas zonas autônomas digitais por aí. Junte-se a elas e passe algum tempo construindo sua reputação.

  7. Se conecte aos outros, não apenas no digital mas também no físico. Tomem algumas juntos, ou inicie um projeto. Declare suas reuniões como autônomas.

  8. Desista do pensamento coletivista, especialmente pedir permissão ou exigir que outros te apoiem antes que você faça qualquer coisa.

  9. Desista da cruzada por homogeneidade filosófica. Nós sempre vamos discordar em alguns detalhes.

  10. Inicie ou apoie cambistas independentes locais. Construa uma posição em moedas digitais, assim você pode participar do comércio paralelo.

  11. Viva uma cultura de Liberdade. Apoie a autonomia de outros visivelmente: Respeite-os!

  12. Contribua com gentileza e força ao mundo. Caridade e justiça cabe a VOCÊ.

  13. Encoraje outros a trabalhar pela liberdade, que invistam e produzam.

  14. Se você é um artista, escritor, músico, designer de moda (ou sei lá), solte suas asas criando nossa nova cultura.

  15. Comece por definir seus limites: Evite pessoas que atacam ativamente a liberdade e que negam a autonomia aos outros.


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Notas do Tradutor

O objetivo desse projeto foi manter a tradução acessível ao público geral sem perder a fidelidade com a obra original. Vários maneirismos dos autores foram mantidos, algumas expressões não foram traduzidas para facilitar pesquisas por parte do leitor, afinal traduzir uma terminologia técnica resultaria em páginas de pesquisa em branco e quase nenhuma referência.

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